quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Igreja Primitiva, um modelo ainda hoje.

   Por Fernando Corrêa Pinto   

Atos dos Apóstolos 2, 42-47

42. E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
43. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.
44. Todos que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.
45. Vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.
46. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partindo o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,
47. Louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso acrescentava-lhes o Senhor, os que iam sendo salvos.


A igreja modelo
Me recordo que no final da minha adolescência me encantei com a vida comunitária, lia a respeito de comunidades reclusas, assistia filmes e muitas vezes sai de casa em busca de tais grupos deixando minha mãe super preocupada e triste. Depois de um tempo percebi que o ambiente que buscava era algo muito fora da realidade.
Após a minha conversão me tornei um leitor assíduo das Escrituras e ao me deparar com o texto de Atos 2,42 percebi que havia encontrado o que buscava.
Comecei a olhar para o amor, o cuidado e a forma que minha igreja vivia e percebi que tinha chegado sem perceber aonde queria.

Da mesma forma o texto narra o surgimento de um grupo que vivia de forma pratica o amor. Que tinha tudo em comum, que não buscava seus próprios interesses, mas se preocupavam com o bem de todos a ponto de venderem o que tinham para suprir a necessidade dos que não tinham o que comer.
Imagine o impacto que foi o surgimento desta comunidade no meio de tanta angustia, tanta divisão, tanta dor e tanta violência que assolava aquela sociedade.
De um lado tínhamos os essênios que eram reclusos e se julgavam ser puros a ponto de não se envolverem com nada ou ninguém. Os Fariseus eram judiciosos o tempo todo analisado todas as pessoas para ver se eles se encaixavam ou não na vontade de Deus. Havia também o grupo dos Saduceus que possuíam aliança com os Romanos. Já os Zelótes, eram os revolucionários e queriam destruir a força o império Romano e ainda se opunham aos outros movimentos políticos e religiosos. E se não bastasse, ali estava à presença assustadora dos romanos. Legiões Romanas viajando para cima e para baixo, sem respeito com o povo, trazendo a “paz” através da violência.
É em meio a toda está turbulência que aparece uma comunidade que não estava preocupada com seus interesses individuais.  As pessoas estavam cheios de alegria e do Espírito Santo, eram singelas, abriam suas casas para receber seus irmãos, celebrar uns com os outros e se abençoar mutuamente. Eles repartiam o que tinham entre si, não porque havia uma imposição ou uma obrigação, mas porque eram movidos de amor de Deus e de forma alguma conseguiam ver seu próximo passando por necessidade e nada fazer.
A comunidade cristã de atos dos apóstolos foi um exemplo para sua época, e assim como foi para o seu tempo hoje também precisamos de comunidades cristãs que sejam exemplos.
Em face disso quero destacar quatro valores que levaram tal grupo a se tornar um exemplo para sociedade de sua época.     
I – O ensino.
No versículo 42 encontro um principio de grande importância na pratica desta comunidade. Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos. O tempo todo estavam aprendendo. Esta palavra doutrina ou didaquê conforme original grego, nos fala de um ensino como uma atividade de instrução. Ou seja, eles aprendiam princípios práticos para o viver diário. Certamente este ensino foi transmitido por Jesus de forma muito próxima no tempo em que estiveram juntos. Quando lemos os evangelhos principalmente o sermão do monte (MT 5,6,7) podemos fazer uma relação direta das praticas vividas pelos primeiros cristãos e o ensinamento de Cristo.     
As comunidades de hoje também precisam se apegar ao ensino dos apóstolos e fugir das doutrinas que geram divisão falta de comunhão com Deus e com o próximo e cultivam o egoísmo. Doutrinas heréticas e sem fundamentação na palavra de Deus.
Assim como ensino foi fundamental para aquela comunidade, também é para a igreja hoje, é preciso perseverar no ensino de Jesus, pois ele nos dará competência para lidar com os muitos desafios da nossa vida e conduzir os perdidos a salvação.
2 – O  Temor
No verso 43 aparece palavra temor ou fóbos conforme o original. Esta palavra possui mais de uma variação, entretanto precisamos compreendê-la no contexto utilizado em sua época. Aquele grupo estava vivenciando com muita proximidade, os sinais de Deus, como a descida do Espírito Santo, e os milagres que eram feitos por intermédio dos apóstolos, como o próprio texto relata. Isso gerava em cada um profundo temor e respeito a Deus.
Hoje vemos a falta de temor que está presente em muitas comunidades. Ministros que falam em nome de Deus e não possuem o mínimo respeito com Sua palavra, pessoas que usam o nome de Deus para se enriquecer. Estes tratam Deus como algo sem valor.
Todo cristão deve cultivar este valor, pois ser temente ao Senhor é o princípio da sabedoria (Provérbios 1,7) e este respeito nos conduzirá a experimentar os sinais e prodígios de Deus.
3 – Vida compartilhada
A palavra altruísmo foi criada em 1830 pelo filósofo francês Augusto Comte para caracterizar o conjunto das disposições que inclinam os seres humanos a dedicarem-se aos outros. E possível observamos claramente tal valor presente na comunidade cristã primitiva, e isso porque os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Essa afirmação quer dizer que o grupo percebia que a minha necessidade também era do outro, que se eu tinha fome, meu irmão também poderia ter, que se eu vivia privações os meus irmãos também poderiam viver. Contudo o grupo não pode ficar somente na teoria, partiram para prática. Os que tinham posses abriam mão por conta das necessidades do outro, o pão era levado nas casas e ali matavam a fome de seu próximo, comiam com simplicidade, dando graças e louvando a Deus.
 Mas a pergunta que fica é como viver desta forma nos dias de hoje? Nosso grande desafio atualmente é não desistir de crer que é possível, e buscar formas de aplicar tais princípios. Aquela comunidade não tinha metade dos recursos que temos. Quantas roupas que guardamos anos sabendo que não voltaremos a usar quanta comida que desperdiçamos. Tudo que sobra em minha casa pode ser o que falta para o meu irmão. Falta dedicação ao outro e sobra espírito de miséria.
Um conhecido pastor brasileiro faz seguinte afirmação acerca do altruísmo desta comunidade: ”A fé crista é comunitária. Todo pão é pão nosso, todo perdão é perdão nosso, toda vitória é vitória nossa, toda bênção é benção nossa, pois sabemos que a verdadeira identidade de cada um está no relacionamento. Este principio está nas escrituras desde sempre.”
Diante de tal ensinamento percebemos que uma vida de entrega, que não busca nossos próprios interesses fará com que a igreja se torne um lugar de paz, contentamento e abundancia de alegria.     
 4 – Oração
A oração era constante no meio da igreja eles perseveravam, em todo momento estavam orando. O cultivo da comunhão não se limitava ao próximo, mas a sede deles era pela presença de Deus e por isso perseverava em falar com o Senhor. Desta forma muitos sinais e prodígios eram feitos por intermédio dos apóstolos. Era uma igreja cheia do poder de Deus.
É lamentável que hoje muitas comunidades tenham perdido está pratica fundamental. Certa vez um pregador criticou os cultos de oração no meio da igreja. Ele dizia que estava tão passiva diante da responsabilidade e prazer de orar que era preciso criar cultos de oração. Concordo com este pregador. Principalmente no tempo que vivemos hoje. Tempo de redes sociais, de vida corrida, de ativismo. Muitas vezes trocamos o tempo que deveríamos ter com o Senhor e nos enchemos do que o mundo nos oferece.
É preciso não abusar do que é lícito e rouba o nosso tempo com Deus. Existe uma grande diferença de uma igreja que ora para aquela que já esfriou nesta pratica fundamental. O poder de Deus, a direção do Espírito, e a graça de Cristo. Desta forma também contaremos com a simpatia de todos ao nosso redor.
Quem diria! Que a comunidade que tanto busquei se chama Igreja. Entretanto para que esse modelo se torne realidade em nossas comunidades é necessário viver os valores lembrados nesta reflexão. Que haja perseverança, para vencer os grandes desafios do dia a dia. No temor e reverencia a Deus, na oração e no viver para o próximo. Na força do Espírito Santo é possível. Que o Senhor nos a força necessária.


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