terça-feira, 28 de outubro de 2014

Vocação e chamado

Escrito por Fernando Corrêa Pinto
A vocação missionária e o chamado para pastorear são serviços especiais dados por Deus para a expansão do Seu Reino e para a salvação do mundo. Para que haja salvação é necessário que pessoas sejam enviadas (Romanos 10.14-15). É uma grande responsabilidade pregar o evangelho a outros povos e culturas. É um desafio grandioso a tarefa de plantar igrejas e pastorea-las. Portando, para que essa tarefa seja realizada o missionário ou pastor deve ter clareza de seu chamado e motivação para realizá-lo.
Quando nos referimos à questão de motivação, John MacArthur lembra um princípio importante para o exercício do pastorado, encontrado no texto de (Tito 1.6-9);

[...] alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. 

Ele destaca que a presença da palavra: “Irrepreensível” não se refere a uma perfeição impecável, pois, neste caso, nenhum ser humano estaria qualificado para o ofício, mas a um padrão elevado e maduro que implica em um exemplo coerente.
Neste sentido, é necessário destacar também a importância do amor a Cristo e às pessoas como pré-requisito fundamental para o exercício do ministério.  Tal caminho deve ser o motivador e sustentador do chamado pastoral. Todavia, nesta parte, apesar dos destaques acima, o objetivo não é estabelecer padrões, e sim discutir a motivação que levam pessoas ao ministério hoje.
John Piper, em seu livro Irmãos, não somos profissionais, mostra que uma parcela considerável dos pastores tem sido pressionada com a idéia de que o ministério pastoral é um emprego como qualquer outro. Como vemos na citação abaixo:
Nós, pastores, estamos sendo massacrados pela profissionalização do ministério pastoral. A mentalidade do profissional não é a mentalidade do profeta. Não é a mentalidade do escravo de Cristo. O profissionalismo não tem nada que ver com a essência e o cerne do ministério cristão. Quanto mais profissionais desejamos ser, mais morte espiritual deixaremos em nosso rastro.

A vocação é o caminho que rege as escolhas. Podemos dizer que nossa sociedade visa, acima de tudo, o lucro. As pessoas são valorizadas pelo que possuem, e não pela dignidade de seu caráter. Desta forma, o dinheiro norteia as escolhas profissionais. Quando alguém consegue unir o senso do dever cumprido com o sustento financeiro alcança certa satisfação. Outros são seduzidos pelo status do ministério e da liderança, contudo jamais possuíram o chamado.
Tratando de motivação para o chamado pastoral, o autor Kléos Magalhães Lenz César fala sobre os alicerces inseguros da hereditariedade, a emoção, a manifestação sobrenatural e a desinformação doutrinaria. Para ele, tais motivações são demasiadamente instáveis.
De Pastor a Pastor de Hernandes Dias Lopes e um livro que sempre recomendo para pastores que estão no campo missionário ou no exercício do pastorado. Esta obra discute alguns problemas que podem abalar profundamente aquele que está no ministério e não possui a vocação. Ele menciona problemas como insegurança no ministério, medo de fracasso e indisposição para correr riscos.Também se refere aos que governam o povo com um rigor demasiado, que dominam, usam de autoritarismo e quando são questionados sobre o seu modelo de pastoreio são agressivos. Outros são vitimas e sofrem com este tipo de atitude de seus líderes. Lopes também lembra que alguns estão iludidos com o ministério, entendendo que o exercício da vocação pastoral é uma diversão e não conseguem reagir quando a realidade de lutas, oposições e pressões chegam. Ele menciona problemas crescentes no meio pastoral, tais como, crises conjugais constantes, pastores que vivem em uma contínua correria e deixam de atender os de casa. Jaime Kemp afirma que atualmente existe uma grande porcentagem de pastores em todo mundo que têm sérios problemas familiares.
Lopes ainda defende que um problema recorrente também no meio pastoral moderno é o descontrole financeiro e irresponsabilidade administrativa. Hoje, existem muitos líderes cristãos com pendências financeiras em diversos estabelecimentos e vivendo de aparência, ostentando um padrão de vida acima de suas condições financeiras. Nos casos citados acima é necessário reavaliar o chamado e tratar destas pendências que podem comprometer a eficácia da missão e manchar a imagem do evangelho.
Olhando pela ótica missionária, algo que deve sempre ser feito, percebemos o chamado missionário de Deus é visto em todo o contexto bíblico. Podemos citar a vida de Abraão (Genesis 12. 1 - 3), no caso dele o Senhor o chama e diz que todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio. O Apostolo Paulo reconhece que as boas novas da salvação haviam sido anunciadas a Paulo previamente “Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou previamente a boa nova a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações (Galatas .8)” 
Jesus mais tarde também afirma “Abraão alegou-se por ver o meu dia, viu e regozijou-se” (João 8. 56).
Pegando como exemplo a história de Abraão podemos lembrar de muitas lições para a nossa missão hoje. Primeiramente é necessário falar que a missão de Deus tem duas dimensões. A primeira está ligada aos dons que o Senhor concede a cada um para um serviço vemos isso em (1 Coríntios 12 e Romanos 12), mas, também existe aquela vocação para o envio exclusivo segundos os ministérios mencionados em (Efésios 4.11). Desta forma é necessário nos lembrar que para o envio missionário depende desse chamado que é divino.
Mas como discernir esse chamado. É preciso estar atento a algumas evidencias que o Espírito Santo da ao missionário. A primeira que entendo que é de grande importância é a convicção dada pelo Espírito Santo a nós. Nós devemos desejar a excelente obra. (1 Timóteo 3.1).  Algo de grande importância é a testificarão da igreja local. A igreja representada pelos membros e liderança deve abençoar o enviado. Recordo-me que em 2008 na época em que ainda estudava no seminário, estava com tudo pronto para uma viagem missionária de curta duração para o Chile. Iria com um grupo de pastores que já possuíam uma igreja plantada naquele lugar e periodicamente iam dar suporte, estava bem animado e acreditava que Deus estava me guiando fazer isso, já possuía o valor da viagem, a documentação estava pronta só precisava que o pastor responsável por me acompanhar me autorizasse faltar um domingo na igreja onde trabalhava. Para minha surpresa a resposta dele foi não, sem me explicar porque disse que não queria que fosse, muitos na época me disseram para eu faltar e pronto, mas entendia que mesmo diante de um não sem justificativa precisava obedecê-lo, naquele ano não fui ao Chile e segui em paz crendo no governo total de Deus nesta situação, pois precisava que minha igreja e pastor estivessem em paz nesta decisão.   
É necessário também que os meios, a providencia divina e o lugar onde a missão vai ser desenvolvida estejam presentes na vida do missionário, que seja alvo de oração seu e de sua família. As qualificações para o exercício do chamado também são fundamentais, o caráter, humildade, piedade e misericórdia são imprescindíveis para a vida daquele que se sente vocacionado. É preciso possuir paixão pelos perdidos, estar sensível a voz de Deus e estar disposto a servir e sofrer em muitos casos.  No caso de missionários possuírem família a preparação para o envio deve ser feita com todos.
 Todo esse processo de compreensão do chamado e preparação para o seu exercício devem ser regados de oração para que Deus nos de a Sua confirmação da vocação. Nunca a vocação e o envio devem ser motivados por prazeres mundanos, aventura, fuga de sua realidade ou por o individuo não achou nada melhor para fazer na vida. Essas motivações podem causar grandes frustrações futuras. O melhor é ir na segurança da direção do Senhor.







BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. revista e atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
MACARTHUR, John. Redescobrindo o ministério pastoral: Moldando o ministério contem-porâneo aos preceitos bíblicoas. Trad: Lucy Yamakami. Rio de Janeiro: CPAD, 1998. P. 110.
PIPER, John. Irmãos, não somos profissionais: Um apelo aos pastores para ter um ministério radical. Trad: Lilian Palhares. São Paulo: Shedd Publicações, 2009. p. 19.
LOPES, Hernandes Dias. De pastor a pastor: princípios para ser um pastor segundo o coração de Deus. São Paulo: Hagnos, 2008. p. 15.
 KEMP, Jaime. Pastores em perigo: Ajuda para o pastor, esperança para igreja. São Paulo: Hagnos, 2006. p.18.
TOSTES, M. Silas, (org). 2009. p. 94.

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