terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O cuidado integral do missionário

Escrito por Fernando Corrêa Pinto
 

No caminho cristão, o que é importante não é a velocidade com que estamos indo, nem a distância percorrida, mas sim a direção que tomamos.

(A. W. Tozer)

É fundamental saber que aqueles que trabalham e sofrem por servir a Cristo e proclamar seu evangelho de forma nenhuma estarão desamparados, o Senhor Jesus prometeu que sempre estaria junto conosco em todos os momentos (Mateus 28. 18-20). Ele também prometeu que não nos provaria além de nossas forças, desta forma, nenhum destes empecilhos que aqui vou mencionar deve ser fator desmotivador para o avanço missionário nas nações.

Quem vive em contextos transculturais acabam sofrendo muitas pressões em diversas áreas. Muitas vezes essas crises levam os missionários a se sentirem confusos, solitários e  em certos momentos desorientadas. São estrangeiros fora de sua pátria e isso torna tudo mais difícil. Em muitos casos, quando retornam para sua terra natal sofrem o que chamamos de choque cultural reverso, eles se sentem como estrangeiros dentro de sua própria pátria.
Solicitei a um missionário conhecido que me relatasse as principais dificuldades encontradas no campo e em e-mail ele me respondeu:
Creio que um dos primeiros desafios foi o da comunicação. Apesar de poder falar em Inglês e Espanhol, estas línguas foram apenas pontes para chegar até o povo nativo, porém, dali em diante foi preciso tomar a postura como de uma criança e aprender tudo do zero; ser um aprendiz. Foi preciso colocar a vergonha de lado e vestir-me de humildade para aprender do jeito do povo seus usos e costumes, porque a língua expressa a cultura também. Assim pude compreender mais do que ser compreendido, tornando-me como um local apesar de fisicamente ainda ser de fora. Após um ano e meio no Timor-Leste, tive uma experiência que marcou muito minha trajetória no campo transcultural. Uma vez estava com uma equipe de jovens vindos de igrejas diferentes da Austrália e nesta ocasião visitávamos um museu, depois do tempo na aldeia construindo casas para as famílias do local, apoiando um projeto do governo local. Ali, após conhecer um pouco da história do país, um senhora que me servia café em uma cantina parou e permaneceu em pé diante de mim. Intrigado perguntei: Mais alguma coisa senhora? Ela então me perguntou de volta: Você é um timorense nascido na Austrália? Lhe respondi que não, mas curioso lhe perguntei o porque da comparação. Ela na mesma hora me disse que apesar de ter um físico diferente do timorense comum meu trato era como o de um local.
A comida diferente também pode ser um desafio. Na Indonésia por exemplo, os pratos típicos são preparados ou cozinhados com pimenta, e das que ardem! Nos primeiros dias, para me adaptar ao tempero local não foi nada fácil, especialmente para quem não tinha esse tipo de hábito em casa.
Como disse antes, devemos ser aprendizes, porque se eu parar de aprender penso que não estudei corretamente. Muito do que havia aprendido na caminhada cristã na igreja local e depois o primeiro treinamento missionário dentro de Jovens Com Uma Missão foi uma boa base para o começo. É claro que à medida que você segue trabalhando os desafios no campo abrem o espaço para a busca de novos cursos e aperfeiçoamento que trazem ferramentas específicas para o que está sendo desenvolvido além do que é aprendido na prática diária no campo.
Tive momentos de crises ou como se diz “vacas magras”, mas nunca passei necessidade. Deus tem sido fiel e para cada lugar onde já servi e tenho servido como missionário tenho visto o Senhor prover aquilo que é necessário. Às vezes há pessoas que param de apoiar financeiramente e não comunicam, mas aprendi que bons relacionamentos, visão clara do chamado missionário, transparência nas finanças e fé no Senhor da seara e não nos homens formam uma base sólida para um sustento constante. Eu mesmo já a 9 anos no campo tenho amigos na minha rede de parceiros, como a chamo, que estão comigo desde quando fiz a minha Eted (Escola de Treinamento e Discipulado) - escola básica de ingresso na missão.
Tive o choque reverso ao voltar para casa. Pensava: Como as pessoas conseguem pensar tanto em si mesmas quando há tanta gente perdida, e como não pensar em missões como sendo parte primordial na caminhada de fé cristã ao invés de apenas um setor na igreja que às vezes nem é levando a sério.

 De muitas afirmações colocadas pelo nosso amigo missionário concernente ao desafio no campo transcultural, acredito que o que é necessário levar em conta trata-se do choque cultural. Para pessoas que têm necessidades diárias, como se alimentar, vestir-se, descansar ou até de cuidados médicos, lidar com as dificuldades de comunicação passa a ser um grande obstáculo.  
Outra questão falada pelo nosso amigo trata-se do choque cultural reverso, isso acontece quando retornamos para a nossa cidade natal e neste momento existe uma grande cobrança em relação aos resultados do trabalho.
A questão da comunicação não é desafiadora somente no campo transcultural, mas também no campo mono cultural. Um missionário que sai do sudeste brasileiro e se direciona para o sertão nordestino, por exemplo, pode ter sérias dificuldades na comunicação e adaptação.
Tive muitas experiências enquanto pregava, pois no final da pregação perguntava se as pessoas haviam entendido a mensagem, e o silêncio tomava conta do ambiente, logo percebia que 50% da mensagem não havia sido absorvida pelos ouvintes. Com o tempo, esse problema foi amenizando, mas quando falamos de comunicação, estamos destacando a nossa ferramenta mais importante para um bom relacionamento com a localidade, se esse elemento for prejudicado podemos sofrer de diversas formas.
Esses assuntos são muitas vezes tratados nas agências, entretanto, como nosso amigo Rob fala acima, na caminhada no campo precisamos nos tornar aprendizes novamente.
Os riscos de estar em ambientes violentos, com pragas e conflitos podem abalar emocionalmente o servo. Em muitos lugares o missionário tem que conviver com o risco de contrair malária e outros problemas decorrentes da falta de higiene, além disso, existem povos que estão afundados em epidemias de HIV/AIDES.
No decorrer do trabalho missionário é grande o número de pastores e missionários que abandonam o campo, os motivos são variados, mas podemos elencar alguns.
O esgotamento físico muitas vezes é uma causa, o cansaço e a falta de vigor os impedem de dar continuidade no trabalho.
Alguns acabam deixando o trabalho por falta de apoio da agência ou igreja que os enviou, outros recebem somente ajuda financeira e ficam carentes nos outros aspectos básicos.
 É importante lembrar que o cuidado integral do missionário trata-se não só de apoio financeiro, mas também de oração, pastoreio, visita, mensagens e orientação.
Muitos deixam o campo por conta do relacionamento com outros companheiros de grupo e neste caso a corrupção pode estar presente nesta relação.
Ainda podemos ver o abandono do trabalho quando os mantenedores deixam de ser fiéis, quando há problema com os filhos, problemas financeiros, de saúde, sentimento de incapacidade e dificuldade de adaptação.
Para que esse problema seja sanado é preciso que o cuidado seja integral. Em primeiro lugar o missionário não deve achar que é um herói insubstituível, férias são para ser tiradas. O missionário que sai para descansar em sua cidade natal acaba assumindo tantos compromissos de visitar e pregar que acaba trabalhado mais ainda. A melhor coisa neste caso é ficar em uma cidade vizinha e descansar.
É preciso também que o cuidado com a saúde não seja negligenciado, antes de ir para o campo, questões relacionadas a planos de saúde e cuidados com medicamentos devem ser tratados com a agência, igreja ou com alguém que queira se dispor a ajudar. As necessidades dos filhos devem ser cuidadosamente estudadas, eles sofrem com a adaptação e em alguns casos com a falta de escola, moradia, transporte do campo para a cidade natal e tempo de permanência devem ser seriamente discutidos.
Finalizo essa parte enfatizando que todos precisam ser pastoreados, quando isso não é feito pessoalmente é preciso que seja feito por e-mail ou skype. O Aconselhamento deve ser frequente, e em caso de problemas emocionais como depressão, pânico e outros, a terapia online também pode ser um recurso.
Sabemos que hoje existem mais de 100 milhões de cristão sendo perseguidos pelo mundo. Quando a situação se agrava a ponto de oferecer risco para a integridade do missionário, para a missão e sua família, é preciso haver socorro por parte da igreja ou agência.
 Em alguns momentos o chamado deve ser reavaliado, não para o abandono da missão, mas para nos perguntar se o tempo para estar naquele lugar acabou, se pode ser tempo de mudança, ou talvez de descanso. Muitos se envergonham em falar sobre isso, entretanto, mais vale uma família conservada sendo utilizada e em um campo mais apropriado do que ter uma família destruída e infrutífera.
O missionário precisa lembrar também que se o trabalho estava programado para 3 anos e precisa ser abandonado no segundo ano, este teve um ano de aproveitamento do trabalho, a palavra foi semeada e certamente o trabalho não será em vão.
Certamente que decisões como esta devem ser feitas com muita oração e orientação, lembrando que muitos podem ter mais disposição para o sofrimento que outros, cada caso deve ser visto e orado sem se criar regras gerais para indivíduos diferentes.
  Algo que é necessário se falar neste momento é sobre a forma de envio do missionário, existem muitas formas disto acontecer.
O missionário pode ir por contra própria, isso é o que chamamos de autoenvio, normalmente o missionário faz contato com uma igreja local e acaba financiando sua viagem. Ele pode ser enviado também por uma agência sem a participação de sua igreja, ele se filia à agência e tudo é feito por lá, ele pode ser também enviado por sua igreja local, esta fica responsável pelo preparo e sustento do mesmo, e ainda pode haver uma parceria entre os dois.
Hoje em dia existem diversas agências que fazem o trabalho de envio, bem como igrejas que tem o seu departamento de missões. Acredito que isso é motivo de alegria, pois a igreja tem visto missões não como uma atividade paralela da igreja, mas como parte essencial da mesma.
Na relação entre agência e igreja-instituição, é preciso tomar alguns cuidados para que a missão e o missionário não sejam prejudicados, é importante que a igreja veja a agência como uma aliada no serviço e conte com seu serviço, é fundamental verificar o trabalho que está sendo realizado por ela a fim de ter segurança para contar com seus serviços.
A agência deve reconhecer que a missão é um trabalho da igreja e de forma nenhuma tentar difamar o trabalho da igreja local. É preciso ter uma boa comunicação entre a agência e a igreja a respeito das resoluções como documentações dos enviados. O acordo entre as mesmas deve ser estabelecido com bastante antecedência e clareza, cada um sabendo seu papel. Qualquer problema na comunicação e eficácia desta relação pode acarretar muitos danos para quem está no campo, principalmente na hora do socorro.
Deus estará sempre requerendo que seus servos sejam enviados para a realização da missão. As colocações feitas acima não são de forma nenhuma movidas por tentativa de frustrar ou desanimar o missionário, mas de fazer com que problemas que já são corriqueiros no campo venham a ser amenizados.
É de meu conhecimento que muitos que hoje estão no campo estão passando por severas perseguições, muitos estão doentes e outros até já perderam filhos, esposas ou maridos na obra, mas permanecem firmes. Neste momento devemos nos lembrar da atuação dos discípulos em Atos dos Apóstolos, dos crentes na China, indonésia, Coréia do Norte e outros países que declaram guerra contra qualquer manifestação cristã em seu meio. Devemos nos lembrar destes modelos e perceber a ação cuidadosa de Deus em suas vidas, Sua promessa é que Ele jamais nos desampararia, mas que estaria conosco sempre.
Devemos sempre recorrer a Deus e em momento algum rejeitar o cuidado pastoral e o discipulado amoroso de nossos líderes, quanto mais breve a ajuda chegar, mais rápido a cura virá.

 O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo
(John Stott)



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