segunda-feira, 27 de julho de 2015

Formando discipulos na prática


Por Fernando Corrêa Pinto

Acredito que toda formação, tanto para o ministério pastoral, quanto para o missionário precisam passar pelo discipulado bíblico. A parte do estudo teórico é fundamental, estudos bíblicos aprofundados, leitura de livros contendo as experiências de muitos que tiveram bom êxito no ministério é de suma importância; entretanto, caminhar ao lado de um irmão mais velho na fé é requisito fundamental no preparo missionário de Jesus.

Ser e fazer discípulos possuem dois aspectos fundamentais: O primeiro diz respeito ao senhorio de Jesus. Este ponto requer disposição para negar a si mesmo, se tornar um com Deus e submeter-se ao seu governo de forma integral. “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos mando?” (Lucas 6:46).[1]
Quando li o livro “O discípulo” de Juan Carlos Ortiz, descobri algo que me fez pensar muito nos aspectos do Senhorio de Jesus sobre a vida do discípulo. Vejamos o trecho abaixo:
A palavra “senhor” não tem hoje o mesmo significado de quando Jesus se achava na terra. Naquela época, ela significava  autoridade máxima, o número um, o homem que estava acima de todos os outros, o dono de toda a criação. O vocábulo grego kurios (que significa senhor) com inicial minúscula era usado pelos escravos ao se dirigirem a seus amos. A mesma palavra, com inicial maiúscula, era aplicada a apenas uma pessoa em todo o Império Romano — a César. O césar romano era o Senhor. Em verdade, quando os funcionários públicos ou soldados se encontravam na rua, tinham que saudar uns aos outros com as palavras: "César é o Senhor!" E a resposta invariavelmente era: "Sim; César é o Senhor!" Por isso, os cristãos tiveram que enfrentar um grande problema. Sempre que alguém os saudava com estas palavras: "César é o Senhor!", eles respondiam: "Não; Jesus Cristo é o Senhor." Em pouco tempo, tal prática começou a causar-lhes dificuldades. Não que César tivesse ciúmes do nome. A questão era bem mais profunda que isto. A verdade é que César sabia que o que os cristãos diziam na realidade, é que eles estavam sujeitos a um outro tipo de autoridade, e que na balança de suas vidas, Jesus Cristo pesava mais que César. O que eles diziam realmente era: "César, você pode contar conosco em algumas situações, mas se formos forçados a fazer uma escolha, preferiremos a Jesus, porque já entregamos toda a nossa vida a ele. Ele é a pessoa mais importante para nós. Ele é o Senhor, nossa autoridade máxima."[2]

Na experiência profunda de ser um escravo de Cristo, não cabe o antropocentrismo. A nossa vontade, nossos planos, nosso conforto e segurança são aspetos que precisam ser submetidos ao senhorio de Cristo. Não fazemos mais o que desejamos, mas aquilo que o nosso dono deseja.
Logo nos primeiros capítulos desta dissertação falei sobre os perigos do liberalismo teológico e da teologia da prosperidade; neste momento volto a falar que nestes dois não há espaço para a experiência profunda do discípulo, pois colocam no centro a vida humana e não o governo de Jesus. Desta forma, vale o que o indivíduo deseja, o que pensa e a  esperança passa a estar na transformação do governo e não no estabelecimento do reino de Deus. Este antagonismo demonstra que Cristo como Senhor e Sua palavra como nossa regra de fé e prática não são pertinentes.
O segundo aspecto está relacionado à sujeição aos cuidados da liderança estabelecida em nossas vidas. Todos que se propõem a discipular devem antes ser discipulados. Nesta relação de ensino e aprendizagem, de paternidade e cuidado espiritual, os pais Espirituais devem ser exemplos em todas as coisas. Paulo falando aos coríntios afirma “Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo” (1 Coríntios 11:1).[3] Essa é a afirmação de um discípulo que deseja ser exemplo para outros discípulos. A vida tanto de Paulo, quanto de Pedro, Barnabé e os demais discípulos refletiam a vida de Cristo e foram exemplo para que muitos vissem que era possível viver como Jesus viveu.
Não afirmo aqui que estes homens não tiveram pecados, mas que prosseguiram para o alvo de se tornarem conforme a imagem do filho de Deus. (Romanos 8:28).[4] O mestre é considerado como um pai para seu discípulo. Muitas vezes vemos os discípulos de Jesus se direcionando aos seus próprios discípulos como filhos. (1 João 2:1; 2:12; Gálatas 4:19; 1 Timóteo 1:2; Tito 1:4).[5]
Existe um texto muito importante em 1 Timóteo 5:23 onde Paulo orienta Timóteo a beber um pouco de vinho por causa de suas enfermidades. Sabemos que este texto é polêmico para alguns crentes por se tratar do fato de Paulo ter aconselhado a Timóteo a beber vinho, mas deixando de lado essa discussão, podemos ver algo precioso neste texto. Um pai que mesmo estando longe, se preocupava com a saúde de seu filho.
A relação do discipulado ensinado por Jesus é integral. Ele disse;
“[...] ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (Mateus 28:18-19).[6]

A ordem de Jesus era para que o discipulado acontecesse em todos os lugares, com ensino e na força do Espírito Santo. Percebemos que a missão e o discipulado andam juntos. É neste ponto que reside a importância desta prática para a preparação do missionário. Duas pessoas caminhando juntas, uma aprendendo com a outra.
Recordo-me que no início de minha conversão não conheci outro modelo de trabalho na igreja que não fosse o discipulado, e até hoje não abro mão desta forma de viver. Mesmo depois de anos no ministério sempre estou em contato com meu “pai”. É certo que houve um tempo onde ele estava mais próximo, assim como Jesus dos seus, mas mesmo de longe temos contato de pai e filho através de telefone e pela internet. Certamente a internet não era um recurso que o apóstolo Paulo tinha à sua disposição, contudo nós podemos dispor dessa bênção e sigo me comunicando e me aconselhando com meu discipulador.
O processo de formação do discípulo acontece de forma muito prática. Eu vejo meu líder aconselhando, pregando, cuidando de sua família, visitando, orando e estudando a Palavra, e aprendo com ele. O ensino acontece o tempo todo. Acredito que esta é a forma mais eficaz da transmissão do conhecimento para o preparo missionário.
Muitas vezes me senti fraco, estive desanimado, muitas outras precisei confessar pecados. Muitas pessoas acreditam em super pastores, mas eu certamente não sou um destes. Sei das minhas limitações, das minhas fraquezas e enfermidades. Muitas vezes precisei chorar e outras muitas tive alguém para compartilhar minhas vitórias. Muitas foram as vezes que passei a noite orando com meu líder, aprendendo ao seu lado e também tendo momentos de lazer com nossas famílias. Foram experiências que nunca deixarão minha mente e que colocarei em prática para o resto da vida. Também pude ser auxílio a meus líderes em muitos momentos.
Em muitos momentos vi pessoas dizendo “a minha igreja vive o discipulado”. Eu preciso dizer que esta é uma frase redundante, ou deveria ser, pois o discipulado não é uma parte de um programa de certas denominações, mas parte essencial da igreja de Jesus. Muitos não querem viver desta forma hoje. Alguns fatores podem ser entraves para esta relação e é preciso haver confronto em amor. Não ter um coração de aprendiz, estar cheio de tradicionalismo, estar despercebido do assunto ou ignorá-lo e ainda não estar disposto a pagar o preço pelo trabalho de cuidar de vidas... esses são apenas alguns. A vida de um discípulo e discipulador é constante aprendizagem. Não é de se admirar que Moisés só foi chamado por Deus para participar de Sua missão depois de 80 anos como aprendiz (Êxodo 4:12)[7].




[1] BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. revista e atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
[2]ORTIZ, Juan Carlos, O discípulo, Trad. Myrian Talitha Lins. Belo Horizonte: Betânia, 1980. p. 7.
[3]BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. revista e atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Idem

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