sexta-feira, 30 de junho de 2017

Eleição incondicional



Observações preliminares
1. A doutrina da eleição é uma revelação que provém exclusivamente de Deus por meio de sua Palavra. Nenhuma inteligência humana seria capaz de arquitetá-la. Se Deus não a tivesse revelado, nada saberíamos a respeito dela. 

2. Essa doutrina encontra-se esparsamente distribuída pela Bíblia, de Gênesis a Apocalipse. A obra dos teólogos foi sistematizá-la com o propósito de facilitar seu estudo. Não é, porém, uma invenção de teólogos. É, antes, uma doutrina essencialmente bíblica.

3. A eleição é um ato divino que a mente humana é incapaz de perscrutar ou mesmo alcançar. Pelo fato de ser suprarracional, compreendê-la está acima da nossa razão, ainda que não a contrarie. 

4. Não podemos nem devemos contestar o que não somos capazes de compreender no que se refere as ações de Deus.


Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Pois, quem conheceu a mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro? (Rm 11.33,34)

Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo (1Co 2.16). 

5. Deus não nos revelou essa doutrina para ficarmos desanimados ou confusos, mas por amor a nós, que cremos em seu nome. 

6. É uma realidade que aceitamos pela fé, uma vez que se trata de uma revelação do Pai para o nosso bem. 

O conceito de eleição 


Eleição é o eterno ato de Deus pelo qual, em seu soberano beneplácito e sem levar em conta o pré-conhecimento de qualquer mérito das pessoas, ele elege certo número delas para torná-las alvo da graça especial e da salvação (Berkhof).

Em outras palavras, eleição é o eterno, imutável e incondicional ato da soberana vontade de Deus pelo qual, dentre todos os que estavam justamente condenados à perdição eterna, ele escolheu alguns para ser alvo de sua graça e salvação. 

Examinemos os principais elementos dessa definição: 

Ato eterno. Deus nos elegeu antes da fundação do mundo e para todo o sempre. Por isso, sabemos que a eleição não pode ser perdida. Uma vez eleitos, seremos sempre eleitos. 

Assim, pois, também no tempo presente restou um remanescente segundo a eleição da graça  (Rm 11.5).

Como também nos elegeu nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para si mesmo, segundo a boa determinação de sua vontade, para sermos filhos adotivos por meio de Jesus Cristo  (Ef 1.4,5).

Ato imutável. Por ser um dom de Deus, a eleição nunca será revogada, visto que, como diz Paulo: “... Porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29). Essa realidade nos confere total segurança quanto à nossa eleição. 

Ato incondicional. A eleição não foi motivada por nenhuma condição meritória vista por Deus na pessoa eleita. Ela foi um ato de seu exclusivo beneplácito. Deus não foi forçado a eleger. Ele o fez por sua soberana vontade; em outras palavras: Deus elegeu porque quis,

Que diremos? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum. Porque ele diz a Moisés: Terei misericórdia e compaixão de quem eu quiser ter compaixão. Assim, isso não depende da vontade nem do esforço de alguém, mas de Deus mostrar misericórdia (Rm 9.14-16). 

Ato da soberana vontade de Deus. A eleição é um ato da exclusiva iniciativa de Deus, como disse Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi...” (Jo 15.16). Escolhemos a Deus porque ele nos escolheu antes. 

Dentre todos os que estavam justamente condenados à perdição eterna. Todos nós, sem exceção, estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Se toda a humanidade fosse para o inferno, não haveria injustiça da parte de Deus, visto que todos pecaram e o salário do pecado é a morte eterna. 

Ele escolheu alguns. 
Se Deus resolveu escolher alguns para a salvação, não está por isso sendo injusto com os demais que não foram escolhidos; apenas está sendo bondoso com aqueles que escolheu por razões que a nossa própria razão desconhece. Sabemos, contudo, que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável (Rm 12.2). A eleição é um ato da graça, da misericórdia, do amor e não da justiça de Deus. Ela já havia sido exercida quando o homem pecou. A respeito do amor de Deus, João nos mostra o seguinte: Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19, grifo nosso). 

Embora a eleição seja um ato divino, exercido antes da fundação do mundo, ela se efetiva no tempo, porque o eleito vive no tempo. Como Deus alcança o eleito no tempo? Provendo meios para isso. Quando Deus tem um plano, prevê e provê meios de alcançá-lo Ao conjunto desse processo de alcançar o eleito no tempo, chamamos vocação eficaz. Nesse chamado, há um elemento subjetivo e interno e outro objetivo e externo.

Internamente,
 Deus alcança o eleito no tempo mediante a ação do Espírito Santo no coração, mudando a inclinação da pessoa para o mal por uma submissão voluntária à soberana vontade de Deus, tornando essa soberana vontade o centro de sua vida. É o que chamamos de regeneração ou novo nascimento:“Ele vos deu vida, estando vós mortos nas vossas transgressões e pecados [...] estando nós ainda  mortos em nossos pecados, deu- nos vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Ef 2.1,5; v. tb. Tt 3.4-7). Além disso, o Espírito Santo, tendo efetuado essa transformação no coração do eleito, implanta nele a fé salvadora, para que, ouvindo a pregação do evangelho, creia em Jesus como Salvador.

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus (Ef 2.8).

Ouvindo isso, os gentios alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor., e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna (At 13.48, grifo nosso).
 
Externamente
, Deus procura alcançar o eleito por meio da pregação.

Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo por sua própria sabedoria não o conheceu, foi do agrado de Deus salvar os que creem por meio do absurdo da pregação (1Co 1.21, grifo nosso).

... nós pregamos Cristo crucificado, que é motivo de escândalo para os judeus e absurdo para os gentios. Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus  (1Co 1.23,24).

O eleito segue o caminho traçado por Deus para ele. E nesse caminho está a pregação do evangelho. Daí a necessidade da pregação, porque é por meio dela que Deus atinge o eleito no tempo. 

Alguns podem alegar que o ladrão da cruz não teve oportunidade de ouvir a pregação do evangelho. Mas precisamos fazer algumas observações a respeito desse personagem. Em primeiro lugar, ele era um eleito, segundo a palavra de Jesus, que lhe respondeu: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Somente o eleito pode encontrar-se no céu com Jesus. Em segundo, o Espírito Santo operou em seu coração, pois ele passou por uma mudança radical, de zombador e escarnecedor a penitente, chegando a reconhecer Jesus como rei. Em terceiro, ele viu, ouviu e sentiu pessoalmente a seu lado a presença do evangelho encarnado. Que pregação melhor do que essa poderia haver? A única coisa que ele perdeu foi o privilégio, que hoje nós temos, de servir a Jesus em vida. 

E agora a pergunta: “Como saber se sou eleito?”. Você saberá que é um eleito se, com toda a convicção, sinceridade e honestidade, puder dizer como Paulo, em 1Timóteo 1.15: “Esta palavra é fiel e digna  de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”. Seguindo a ordem inversa do texto, podemos dizer que aqui estão as principais evidências da eleição: 

1. convicção de pecado: “pecadores, dos quais eu sou o principal”; 

2. convicção de que Jesus é o Salvador: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”;
 
3. convicção de que Cristo é o Filho de Deus encarnado: “Cristo Jesus veio ao mundo”.
 
Aí estão evidências suficientes. Mas há outras ainda. Uma delas é o reconhecimento do senhorio de Cristo, ou melhor, o ato de fazer Cristo o centro da vida.

Portanto, vos declaro que ninguém, falando pelo Espírito de Deus, pode dizer: Maldito seja Jesus!! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo (1Co 12.3, grifo nosso). 

Além dessas, uma das mais fortes evidências de que você é um eleito é o fato de buscar uma vida mais santa e que agrade a Deus, no esforço constante por subjugar o velho homem que reside em você, porque somente o eleito renovado pelo Espírito passa por essa luta, como ocorria com Paulo e foi por ele relatada em Romanos 7.14-25. Trata-se de uma luta sadia, porque quem não luta já perdeu a batalha, como lemos em 2Coríntios 7.10: “Pois a tristeza segundo a vontade de Deus produz o arrependimento que conduz à salvação, o qual não traz remosrso; mas a tristeza do mundo traz a morte”. O ímpio fica triste porque feriu o seu egoísmo; você, o eleito, porque desagradou a Deus. Essa é a diferença.
 
Resumindo o que aprendemos sobre a eleição

Não foi por nossas obras que o Senhor nos resgatou do sofrimento eterno. Nem foi por mérito algum que ele nos livrou da perdição do inferno. Deus nos salvou somente por amor, como expressão de sua soberana inclinação, num ato de eleição e de favor do coração de um Rei bondoso e terno.

Quem teve a iniciativa nisso tudo foi nosso Deus, que nos salvou; contudo, nem sempre compreendemos suas ações. Ninguém se salvaria neste mundo se o nosso Deus, com seu amor profundo, não escolhesse a alguns por meio da eleição!

Thiago Rodrigues Rocha


Fote http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=405

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