sexta-feira, 30 de junho de 2017

Graça irresistível: vocação eficaz

Podemos considerar a doutrina da graça irresistível como o pilar central do edifício da nossa fé, ou, numa figura bíblica, sua pedra angular. Inicialmente, procuremos conceituar graça. Que é o que é graça? Há várias definições e distinções teológicas do termo. O conceito mais simples é o de que “graça é favor imerecido”. Deus mostrou sua bondade para com o homem, embora ele nada merecesse. Mas, este ato o próprio 

homem tem condições de também realizar: eu posso conceder favor a uma pessoa que nada fez por merecê-lo. 

A nós nos parece que graça é mais que favor imerecido. É favor conferido a quem ofendeu o seu autor, de forma tão grave, que merece a pena de morte; no caso da ofensa a Deus, a morte eterna. Em torno do assunto, faremos três destaques: 

1. É DOUTRINA EXCLUSIVA DA PALAVRA DE DEUS 
A ideia de graça, no sentido acima conceituado, é ensino bíblico, é uma doutrina essencialmente cristã. Ao que sabemos, em nenhuma outra religião aparece esse conceito e esse ensino, nos termos acima definidos. 

Já no Antigo Testamento, a ideia de que a misericórdia divina é favor imerecido se mostra latente, nesta oração de Jacó: “... sou indigno de todas as misericórdias e toda fidelidade que tens usado para com teu servo; pois com apenas meu cajado atravessei este Jordão; já agora sou dois bandos” (Gn 32.10). E neste texto do profeta Isaias: “Celebrarei as benignidades do Senhor e os seus atos gloriosos, segundo tudo o que o Senhor nos concedeu e segundo a grande bondade para com a casa de Israel, bondade que usou para com eles, segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades”(Is 63.7). 

Um dos textos mais expressivos do AT, em que o próprio Deus mostra Seu favor para com Seu povo, encontra-se em Deuteronômio 7.7,8: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava e, para guardar o mandamento que fizera a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito”. 

No Novo Testamento, a ideia se expande e se firma e o termo “graça” aparece muitas vezes. Paulo é o autor que mais se preocupou em mostrar que o favor de Deus para com o escolhido é imerecido: Romanos 3.24 – “... sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” – Efésios 2.5,8,9: “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos ... Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.
 
A conclusão a que chegamos, neste tópico, é a de que os que conhecem a Bíblia, e a reconhecem como Palavra de Deus, são privilegiados, por terem acesso a essa maravilhosa revelação: Há um Deus que nos ama, a despeito dos nossos deméritos, e que nos perdoa de todos os nossos pecados. Isso é que é GRAÇA. É por esse motivo que podemos declarar que, espiritualmente, estamos vivendo na DISPENSAÇÃO DA GRAÇA. 

2. É ATRIBUTO EXCLUSIVO DE DEUS 
A maior expressão da graça de Deus é a cruz. O conhecido texto de João 3.16 mostra essa realidade: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...”. A graça de Deus O levou a entregar o próprio Filho, para morrer em lugar do condenado à morte eterna, aquele que O havia ofendido tão gravemente, perdoando-o de todos os seus pecados. Por que Deus chegou a esse ato tão extremo? Primeiramente, por SUA INESCRUTÁVEL E SOBERANA VONTADE. É difícil entender a vontade de Deus, porque n’Ele tudo é absoluto. Ele mesmo decidiu, pela Sua graça, entregar o próprio Filho, para expiar os nossos pecados, pois não havia outra forma de nos obter a redenção. Deus fez isso porque quis livrar-nos da maldição eterna.

Em Gálatas 1.3,4, Paulo declara “graça a vós outros e paz da parte de nosso Deus e do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai. Só Deus teria um plano como esse!

Em segundo lugar, por SEU INESCRUTÁVEL E IMPONDERÁVEL AMOR. São muitos os textos bíblicos que revelam que Deus nos salvou e por nós entregou Seu Filho, por amor: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em vossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos” (Ef 2.4,5) - “Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça” (2 Ts 2.16) – “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” (1 João 4.10).
 
Deus nos ama, a despeito de merecermos a Sua ira, com toda justiça. Se o nosso amor, às vezes, é inexplicável, como compreender o amor de Deus? Esse amor é atributo exclusivo de Deus, como dizemos neste soneto: 


AMOR INCOMPREENSÍVEL

Foi neste mundo triste e deformado,
no meio dessa gente corrompida,
desfigurada pelo vil pecado,
que Jesus veio, sem achar guarida.
Nasceu, viveu, morreu, foi imolado,
doou inteiramente a sua vida.
Foi como réu maldito condenado,
por esta humanidade tão perdida.
Como se pode amar o ser abjeto,
que é este homem, fazer dele objeto
de tal amor, que nos parece incrível?
Amor como o de Cristo não existe.
Somente Deus a amar assim persiste,
com amor para nós incompreensível!

3. É FAVOR EXCLUSIVO AOS ELEITOS 
Piper assim define graça irresistível: “Graça irresistível se refere à obra soberana de Deus em vencer a rebelião do nosso coração e trazer-nos à fé em Cristo”.
 
A graça é irresistível, porque Deus muda a inclinação do coração do eleito para o mal pela total submissão a Ele, trocando-lhe o coração de pedra por um de carne, segundo a figura bíblica e, pela ação do Espírito Santo, predispondo-o a aceitar, voluntariamente, o evangelho e a salvação em Jesus.
 
Alguns textos bíblicos mostram essa predisposição: “A mão do Senhor estava com ele, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor” (At 11.21) - “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48) – “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14). 

Deus elegeu antes da fundação do mundo, mas chama o eleito para servi-Lo, no tempo, condicionando-o a aceitá-lo, como vimos acima. A essa chamada denominamos de VOCAÇÃO EFICAZ. 
 
Aqueles que Deus chama vão a Ele, na pessoa de Jesus Cristo, que disse: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6.37) – “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste” (João 17.24) – “Manifestei teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu nos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra (João 6.6).
 
A graça se mostra ainda mais irresistível porque é fruto do amor de Deus para com o eleito. João, referindo-se a Deus, afirma, em 1João 4.19: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro”. E o próprio Deus declarou como foi que nos atraiu para Ele: “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor “(Os 11.4). Quem pode resistir a tal manifestação de amor? Essa é a experiência do pecador a quem Deus chama: 


A VOLTA

Quando, meu Pai, deixei tua presença,
para gozar o mundo e seu encanto,
ouvi a tua voz tão terna e densa:
“Volta, filho, porque te amo tanto!”

E me embrenhei no mundo e no pecado,
e me vendi, e me aviltei, e quanto!
Mas sempre ouvia o teu clamor, teu brado:
“Volta, meu filho, que eu te amo tanto!”

Eu me fiz surdo ao teu clamor, e fundo
desci ainda mais na lama, enquanto
tu me chamavas, ao ver meu rastro imundo:
“Volta, querido filho, eu te amo tanto!”

O caminho de volta foi tão duro,
cheio de dores, de temor e espanto.
E ouvi a tua voz, mesmo no escuro:
“Estou aqui, meu filho, eu te amo tanto!”

Quando te vi, meu Pai, de braço aberto,
a me esperar, a me envolver no manto,
a me beijar, a me abraçar, no aperto,
chorei, quando disseste: “Eu te amo tanto!”

Fonte http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=432

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