sexta-feira, 30 de junho de 2017

Calvino e o Anticristo


"Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele," (2 Tessalonicenses 2:1)

Ora, rogamo-vos, pela vinda. Isto pode na verdade ser lido, conforme notei na margem, como: concernente à vinda, mas é mais conveniente considerá-lo como um pedido sério, a partir do assunto em questão – como em 1 Co 15:31, quando, discursando a respeito da esperança de uma ressurreição, ele faz uso de um juramento por aquela glória que deve ser esperada pelos fiéis. E isto tem muito maior eficácia, quando conjura os fiéis, pela vinda de Cristo, a que não imaginem temerariamente que o seu dia esteja próximo, pois ao mesmo tempo ele nos admoesta a não pensarmos nisto senão com reverência e sobriedade. Pois é costumeiro conjurar pelas coisas que são consideradas por nós com reverência. Portanto, o sentido é: “Assim como atribuís grande valor à vinda de Cristo, quando ele nos reunirá consigo, e realmente aperfeiçoará aquela unidade do corpo que até agora nutrimos apenas em parte, através da fé; do mesmo modo rogo-vos gravemente pela sua vinda a que não sejais demasiadamente crédulos, caso alguém afirme, sob qualquer pretexto, que o seu dia está próximo”.
Como, na sua Epístola anterior, ele havia se referido, até certo ponto, à ressurreição, é possível que, a partir disto, alguns fanáticos e inconstantes tomassem ocasião para determinar um dia próximo e fixo. Pois não é provável que este erro tivesse se originado entre os tessalonicenses antes. Pois Timóteo, ao voltar de lá, havia informado a Paulo toda a sua condição, e, como homem prudente e experimentado, não havia omitido nada que fosse de importância. Ora, se Paulo tivesse recebido notícia acerca disto, ele não teria se silenciado quanto a uma questão de tão graves consequências. Assim, sou da opinião de que, quando fora lida a Epístola de Paulo, a qual continha uma vívida descrição da ressurreição, alguns que estavam dispostos a favorecer a curiosidade filosofaram inoportunamente quanto ao seu tempo. Contudo, esta era uma fantasia absolutamente destrutiva, assim como eram também outras coisas da mesma natureza, que depois se disseminaram, não sem artifício por parte de Satanás. Pois, quando se diz que algum dia está próximo, se não chegar rapidamente, sendo a humanidade por natureza impaciente com maiores dilações, seus espíritos começam a definhar, e logo depois essa languidez é seguida pelo desespero.
Portanto, isto era uma sutileza de Satanás; como ele não podia subverter abertamente a esperança de uma ressurreição, com vistas a solapá-la secretamente, como que por meio de buracos subterrâneos, ele prometera que o seu dia estaria próximo, e logo chegaria. Em seguida, também, ele não cessara de in- ventar várias coisas com vistas a ofuscar das mentes dos homens, pouco a pouco, a crença de uma ressurreição – uma vez que não podia erradicá-la abertamente. De fato, é algo plausível dizer que o dia da nossa redenção está definitivamente fixado, e por esta causa isto é recebido com o aplauso por par- te da multidão, tal como sabemos que os devaneios de Lactâncio e dos quiliastas antigamente causaram grande deleite; e, contudo, eles não tiveram outra tendência senão a de subverter a esperança de uma ressurreição. Este não era o propósito de Lactâncio, mas Satanás, conforme a sua sutileza, perverteu a sua curiosidade, e a dos seus semelhantes, não deixando nada definido ou fixo na religião, e até os dias atuais ele não deixa de empregar os mesmos meios. Agora vemos quão necessária era a admoestação de Paulo, uma vez que, não fosse por isso, toda a religião teria sido subvertida entre os tessalonicenses sob um pretexto plausível.
                 

"Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto." (2 Tessalonicenses 2:2)

Que não vos movais facilmente do vosso entendimento. Ele emprega o termo entendimento para denotar a fé estabelecida que se apoia na sã doutrina. Ora, através daquela fantasia que ele rejeita, eles teriam sido levados como que ao êxtase. Ele também observa três tipos de embuste, contra os quais de- veriam estar de guarda – espírito, palavra e epístola espúria. Pelo termo espírito, ele se refere a pretensas profecias, e parece que este modo de falar era comum entre os fiéis, de modo que aplicavam o termo espírito a profecias, com vistas a lhes dar honra. Pois, para que as profecias tenham a devida autoridade, devemos olhar antes para o Espírito de Deus do que para os homens. Mas, como o diabo costuma transformar-se em anjo de luz (2 Co 11:14), os imposto- res roubaram este título, a fim de se imporem sobre os simples. Mas, embora Paulo pudesse tê-los privado desta máscara, ele preferiu falar desta maneira, por concessão, como se tivesse dito: “Por mais que possam pretender ter o espírito de revelação, não creiais neles”. João, de modo semelhante, diz: “Provai os espíritos, se são de Deus” (1 Jo 4:1).
Palavra, em minha opinião, inclui todo o tipo de doutrina, enquanto os falsos mestres insistam em matéria de razões ou conjecturas, ou de outros pretextos. O que ele acrescenta quanto a epístola é uma evidência de que esta impudência é antiga – a de falsificar os nomes dos outros. Tanto mais maravilhosa é a misericórdia de Deus para conosco, pelo fato de que, embora o nome de Paulo fosse usado falsamente em escritos espúrios, seus escritos, não obstante, foram preservados intactos até os nossos tempos. Isto, sem sombra de dúvida, não poderia ter ocorrido acidentalmente, ou como efeito da mera atividade humana, se o próprio Deus, pelo seu poder, não tivesse restringido Satanás e todos os seus ministros.
Como se o dia de Cristo estivesse já perto. Isto pode parecer estar em desacordo com muitas passagens da Escritura, nas quais o Espírito declara que aquele dia está próximo. Mas a solução é fácil, pois está perto em relação a Deus, para quem um dia é como mil anos (2 Pe 3:8). Ao mesmo tempo, o Senhor queria que o aguardássemos constantemente, de tal modo a não limitá-lo a certo período de tempo. “Vigiai”, diz ele, “pois não sabeis o dia, nem a hora” (Mt 24:36). Por outro lado, aqueles falsos profetas que Paulo desmascara, em- bora devessem ter mantido as mentes dos homens em expectativa, mandavam que estivessem certos do seu rápido advento, para que não se cansassem com o aborrecimento da demora.

"Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição," (2 Tessalonicenses 2:3)

Ninguém vos engane. A fim de que não prometessem a si mesmos infundadamente a vinda do alegre dia da redenção em tão curto espaço de tempo, ele lhes apresenta uma melancólica descrição quanto à futura dispersão da Igreja. Este discurso corresponde plenamente ao que Cristo fez em presença dos seus discípulos, quando estes lhe perguntaram a respeito do fim do mundo. Pois ele os exorta a se prepararem para suportar duros combates (Mt 24:6); e, depois de discursar acerca da mais terrível e antes inaudita das calamidades, pela qual a terra seria reduzida praticamente a um deserto, ele acrescenta que ‘o fim ainda não está próximo’, mas que estas coisas são os princípios das dores. Do mesmo modo, Paulo declara que os fiéis devem exercer guerra por um longo período, antes de alcançarem um triunfo.
Contudo, aqui temos uma passagem notável, e que é, no mais alto grau, digna de observação. Esta era uma terrível e perigosa tentação, que poderia abalar até os mais confirmados, e fazê-los escorregar – ver a Igreja, que tivera, por meio de tantos trabalhos, se levantado gradualmente e com dificuldade até certa posição considerável, abater-se repentinamente, como se afundada por uma tempestade. Concordemente, Paulo fortalece de antemão as mentes, não apenas dos tessalonicenses, mas de todos os que são piedosos, para que, quando a Igreja viesse a estar em uma condição dispersa, eles não ficassem alarmados, como se isto fosse algo novo e inesperado.
Como, porém, os intérpretes têm distorcido esta passagem de várias maneiras, devemos antes de tudo nos esforçar por determinar o verdadeiro sentido de Paulo. Ele afirma que o dia de Cristo não virá, enquanto o mundo não tiver caído em apostasia, e o reinado do Anticristo se estabelecido na Igreja; pois, quanto à exposição que alguns têm dado a respeito desta passagem, como se referindo à queda do Império Romano, é simplória demais para exigir uma refutação extensa. Também fico surpreso de que tantos escritores, em outros aspectos instruídos e perspicazes, tenham incorrido em erro em um assunto que é tão fácil – não fosse que, quando alguém comete um erro, outros o sigam em bandos sem consideração. Portanto, Paulo emprega o termo apostasia no sentido de um abandono traiçoeiro de Deus, e isto não por parte de um ou alguns indivíduos, e sim como algo que se estenderia em toda a parte entre uma grande multidão de pessoas. Pois, quando apostasia é mencionada sem qualquer complemento, não pode ser restringida a poucos. Ora, ninguém pode ser denominado apóstata, senão aqueles que anteriormente fizeram uma confissão acerca de Cristo e do evangelho. Portanto, Paulo prediz certa revolta geral da Igreja visível. “A Igreja deve ser reduzida a um assustador e horrível estado de ruína, antes que sua plena restauração seja cumprida”. 
A partir disto podemos prontamente deduzir quão útil é esta predição de Paulo – pois poderia parecer que não pudesse ser um edifício de Deus, aquilo que fosse subitamente subvertido, e permanecesse por tanto tempo em ruínas, se Paulo não tivesse muito antes sugerido que isto seria assim. Mais ainda, muitos nos dias atuais, quando consideram consigo mesmos a dispersão de longo tempo da Igreja, começam a vacilar, como se isto não tivesse sido determinado pelo propósito de Deus. Os romanistas também, com vistas a justificar a tirania do seu ídolo, fazem uso deste pretexto – que não era possível que Cristo desamparasse a sua esposa. Contudo, os fracos têm algo aqui em que se apoiar, quando aprendem que o estado inconveniente das coisas que contemplam na igreja foi há muito predito; enquanto, por outro lado, a impudência dos romanistas é abertamente desmascarada, porquanto Paulo declara que ocorrerá uma revolta, quando o mundo for trazido sob a autoridade de Cristo. Ora, veremos em breve por que o Senhor permitiu que a Igreja, ou ao menos o que parecia ser tal, decaísse de maneira tão vergonhosa. 
Se manifeste. Não era melhor do que uma fábula de velhas que se concebeu a respeito de Nero – que ele fora arrebatado do mundo, destinado a voltar novamente para afligir a Igreja através da sua tirania; e, contudo, as mentes dos antigos estavam tão enfeitiçadas, que eles imaginavam que Nero seria o Anticristo. Contudo, Paulo não fala de um indivíduo, mas de um reino, que seria apoderado por Satanás, para que ele estabelecesse um trono de abominação em meio ao templo de Deus – o que vemos cumprido no Papado. É verdade que a rebelião se espalhou mais extensamente, pois Maomé, como era um apóstata, desviou de Cristo os turcos, seus seguidores. Todos os hereges têm quebrado a unidade da Igreja pelas suas seitas, e assim tem havido correspondente número de rebeliões contra Cristo.
Todavia, Paulo, ao dar o alerta de que haveria tal dispersão, que a maior parte se revoltaria contra Cristo, Paulo acrescenta algo mais sério – que haveria tal confusão, que o vigário de Satanás manteria o poder supremo na Igreja, e a presidiria ali no lugar de Deus. Ora, ele descreve esse reinado de abominação sob o nome de uma única pessoa porque é apenas um reinado, embora um suceda ao outro. Meus leitores agora entendem que todas as seitas pelas quais a Igreja tem sido reduzida desde o princípio têm sido tantas correntes de rebelião que começaram a drenar a água do curso original; mas que a seita de Maomé foi como que um jorro impetuoso de água, que removeu quase a metade da Igreja pela sua violência. Restava, ainda, que o Anticristo infectasse a parte restante com o seu veneno. Assim, vemos com os nossos próprios olhos que esta predição memorável de Paulo tem se confirmado pelo evento.
Na exposição que apresento, não há nada de forçado. Os fiéis naquele tempo sonhavam que seriam transportados para o céu, após terem sofrido dificuldades durante um breve período de tempo. No entanto, pelo contrário, Paulo prediz que, depois de terem inimigos estranhos molestando-os por algum tempo, eles teriam de suportar mais males dos inimigos em casa, porquanto muitos daqueles que fizeram uma confissão de dedicação a Cristo seriam levados à abjeta traição, e porquanto o próprio templo de Deus seria contaminado por sacrílega tirania, de modo que o maior inimigo de Cristo exerceria o seu domínio ali. O termo manifestação é tomado aqui para denotar manifesta posse da tirania – como se Paulo tivesse dito que o dia de Cristo não viria enquanto esse tirano não tivesse se manifestado abertamente, e tivesse, por assim dizer, propositalmente subvertido toda a ordem da Igreja.

"O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus." (2 Tessalonicenses 2:4)

O qual se opõe, e se levanta. Os dois epítetos – homem do pecado e filho da perdição – sugerem, em primeiro lugar, quão terrível seria a confusão, a fim de que a sua indecência não desencorajasse as mentes fracas; e ainda, elas tendem a incitar os que são piedosos a um sentimento de abominação, para que não se degenerem com os demais. Contudo, Paulo traça agora, como em um quadro, um surpreendente retrato do Anticristo; pois pode-se facilmente deduzir a partir destas palavras qual é a natureza do seu reino, e de que coisas consiste. Pois, quando o chama de adversário, quando diz que ele reivindicará para si as coisas que pertencem a Deus, de modo que é adorado no templo como Deus; ele põe o seu reino em oposição direta ao reino de Cristo. Por isso, assim como o reino de Cristo é espiritual, do mesmo modo deve haver essa tirania sobre as almas, a fim de rivalizar o reino de Cristo. Também o encontraremos depois atribuindo-lhe o poder de enganar, por meio de doutrinas ímpias e pretensos milagres. Se, concordemente, quereis conhecer o Anticristo, deveis vê-lo como diametralmente oposto a Cristo.
Onde traduzi: tudo o que é chamado Deus, a leitura mais comumente recebida entre os gregos é: todo o que é chamado. Contudo, pode-se conjecturar, tanto a partir da tradução antiga, como de alguns comentários gregos, que as palavras de Paulo foram corrompidas. O equívoco, também, de uma única letra prontamente se introduziu, especialmente quando o formato da letra era muito semelhante; pois, onde estava escrito πᾶν τὸ (tudo), algum copista, ou leitor muito atrevido, transformou em πάντα (todos). Esta diferença, porém, não é de tanta importância para o sentido, pois Paulo, sem sombra de duvida, quer dizer que o Anticristo tomaria para si as coisas que pertencem a Deus somente, de modo que se exaltaria acima de toda reivindicação divina, para que toda a religião e todo o culto a Deus estivessem aos seus pés. Neste caso, a expressão: tudo o que se chama Deus, é equivalente a tudo o que se reconhece como Divindade, e σέβασµα – ou seja, aquilo em que consiste a veneração devida a Deus.
Aqui, porém, o assunto tratado não é propriamente o nome de Deus, e sim a sua majestade e adoração; e, em geral, tudo o que ele reivindica para si. “A verdadeira religião é aquela pela qual o verdadeiro Deus é exclusivamente adorado; isto, o filho da perdição transferirá para si”. Ora, todo aquele que aprendeu pela Escritura quais são as coisas que pertencem mais especialmente a Deus, e, por outro lado, observar o que o Papa reivindica para si – ainda que fosse um menino de dez anos de idade – não terá grande dificuldade em reconhecer o Anticristo. A Escritura declara que Deus é o único Legislador (Tg 4:12) que pode salvar e destruir; o único Rei, cujo ofício é governar as almas pela sua palavra. Ela o apresenta como o autor de todos os ritos sagrados; ela ensina que a justiça e a salvação devem ser buscadas de Cristo somente; e designa, ao mesmo tempo, o meio e o modo. Não existe nenhuma destas coisas que o Papa não afirme estar sob sua autoridade. Ele se orgulha de que cabe a ele impor às consciências as leis que lhe pareçam boas, e sujeitá-las ao castigo eterno. Quanto aos sacramentos, ou ele institui novos, de acordo com a sua própria inclinação, ou corrompe e deforma aqueles que foram instituídos por Cristo – sim, descarta-os completamente, para por em lugar deles os sacrilégios que inventou. Ele inventa meios de alcançar a salvação que estão completamente em desacordo com a doutrina do Evangelho; e, por fim, não hesita em mudar toda a religião de acordo com a sua vontade. Dizei-me, o que é exaltar-se acima de tudo o que se chama Deus, se o Papa não faz isto? Quando deste modo priva a Deus de sua honra, ele não lhe deixa nada além de um título vazio de Divindade, enquanto transfere para si todo o seu poder. E é isto o que Paulo acrescenta logo depois, que o filho da perdição quererá parecer Deus. Pois, conforme foi dito, ele não insiste no simples termo Deus, mas sugere que o orgulho do Anticristo seria tal que, levantando-se acima do número e posição dos servos, e subindo na tribuna de Deus, reinaria, não com autoridade humana, mas divina. Pois sabemos que tudo o que é levantado em lugar de Deus é um ídolo, ainda que não traga o nome de Deus.
No templo de Deus. Apenas por este termo há uma refutação suficiente do erro; mais ainda, da estupidez daqueles que consideram que o Papa seja o Vigário de Cristo, pelo fato de ter o seu trono na Igreja, seja de que maneira possa se conduzir; pois Paulo não põe o Anticristo em nenhum outro lugar senão no próprio santuário de Deus. Pois este não é um inimigo estranho, mas doméstico, que se opõe a Cristo sob o próprio nome de Cristo. Mas, questiona-se, como pode a Igreja ser apresentada como covil de tantas superstições, ao passo que foi destinada para ser a coluna da verdade (1 Tm 3:15)? Respondo que ela é assim representada, não pelo fato de reter todas as qualidades da Igreja, e sim porque tem algo dela remanescente. Concordemente, admito que esse é o templo de Deus em que o Papa tem domínio, mas ao mesmo tempo profanado por inúmeros sacrilégios.

"Não vos lembrais de que estas coisas vos dizia quando ainda estava convosco?
 "(2 Tessalonicenses 2:5)
Não vos lembrais? Isto acrescentou não pouco peso à doutrina – que anteriormente eles a tinham ouvido pela boca de Paulo – para que não pensassem que havia sido inventada por ele no momento. E, como ele lhes havia dado um aviso inicial quanto ao reino do Anticristo, e a devastação que sobreviria à Igreja, quando nenhuma questão ainda havia sido levantada quanto a tais coisas, ele considerou fora de dúvida que era especialmente útil conhecer a doutrina. E, sem sombra de dúvida, isto é realmente assim. Aqueles a quem se dirigira estavam destinados a ver muitas coisas que os afligiria; e, quando a posteridade visse uma grande proporção daqueles que haviam feito confissão da fé de Cristo se rebelarem contra a piedade, enlouquecidos como que por uma mosca, ou antes, por uma fúria, o que poderiam fazer, senão vacilar? Porém, esta era uma muralha de fogo – que as coisas foram assim designadas por Deus porque a ingratidão dos homens era digna de tal vingança. Aqui podemos ver como os homens são esquecidos em questões que afetam a sua salvação eterna. Também devemos notar a mansidão de Paulo; pois, embora pudesse ter veementemente se enfurecido, ele apenas os repreende mansamente; pois é um modo paternal de censurá-los dizer que haviam consentido que o esquecimento de uma questão tão importante e tão útil entrasse furtivamente em suas mentes.
                 

"E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado"

(2 Tessalonicenses 2:6)
E agora o que o detém. Τὸ κατέχον significa aqui propriamente um impedimento ou ocasião de demora. Crisóstomo, que pensa que isto só se pode entender em referência ao Espírito, ou ao Império Romano, prefere apoiar esta última opinião. Ele aponta uma razão plausível – porque Paulo não teria falado do Espírito em termos enigmáticos, mas, ao falar do Império Romano, queria evitar despertar um sentimento desagradável. Ele explica também a razão pela qual o estado do Império Romano retarda a revelação do Anticristo – porque, assim como a monarquia da Babilônia foi subvertida pelos persas e medos, e os macedônios, tendo conquistado os persas, novamente tomaram posse da monarquia, e os macedônios foram finalmente subjugados pelos romanos; do mesmo modo o Anticristo tomaria para si a supremacia vacante do Império Romano. Não há nenhuma destas coisas que não tenha sido confirmada depois pelos acontecimentos reais. Portanto, Crisóstomo fala com verdade até onde diz respeito à história. Contudo, sou da opinião de que a intenção de Paulo era diferente disto – que a doutrina do evangelho precisava se espalhar aqui e ali, até que praticamente todo o mundo estivesse convencido de obstinação e malícia deliberada. Pois não pode haver dúvida de que os tessalonicenses haviam ouvido da boca de Paulo quanto a este impedimento, seja de que natureza fosse, pois ele evoca à recordação deles o que havia anteriormente ensinado em sua presença.
Que os meus leitores considerem agora qual dos dois é mais provável – ou que Paulo declarou que a luz do evangelho deve ser difundida por todas as partes da terra antes que Deus assim dê rédeas soltas a Satanás; ou que o poder do Império Romano permaneceu no caminho da ascensão do Anticristo, porquanto ele só poderia abrir caminho para um domínio vacante. Ao menos tenho a impressão de ouvir Paulo discursando quanto ao chamado universal dos gentios – que a graça de Deus deve ser oferecida a todos; de que Cristo deve iluminar a todo o mundo pelo seu evangelho, a fim de que a impiedade dos homens fosse mais plenamente atestada e demonstrada. Portanto, esta foi a demora, até que a carreira do evangelho fosse completada – porque um convite gracioso à salvação era o primeiro na ordem. Por isso acrescenta: a seu tempo, porque a vingança estaria madura depois que a graça tivesse sido rejeitada.

"Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado;" (2 Tessalonicenses 2:7)

O mistério da iniquidade. Isto é oposto à revelação; pois, como Satanás ainda não havia reunido tanta força, para que o Anticristo pudesse oprimir, abertamente, a Igreja, ele diz que ele está realizando secreta e clandestinamente o que faria abertamente em seu devido tempo. Portanto, naquele tempo ele estava lançando, secretamente, os fundamentos sobre, os quais, posteriormente levantaria o edifício, tal como realmente aconteceu. E isto tende a confirmar mais plenamente o que eu já disse – que não é um indivíduo que é representado sob o termo Anticristo, e sim um reino, que se estende por muitas eras. No mesmo sentido, João afirma que o Anticristo virá, mas que já havia muitos em seu tempo (1 Jo 2:18). Pois ele admoesta aqueles que viviam naquela ocasião a estarem de guarda contra essa pestilência mortal, que então estava crescendo de diversas formas. Pois estavam nascendo seitas que eram, por assim dizer, as sementes daquela erva desgraçada que quase sufocou e destruiu toda a lavoura de Deus. Mas, embora Paulo transmita a ideia de uma forma secreta de operação, ele fez uso do termo mistério ao invés de qualquer outro, aludindo ao mistério da salvação, do qual fala em outro lugar (Cl 1:26); pois ele insiste atentamente na luta de repugnância entre o Filho de Deus e esse filho da perdição.
Somente um que agora resiste. Embora faça ambas as declarações em referência a uma só pessoa – que ela manterá a supremacia por um período de tempo, e que logo será tirada do caminho – não tenho dúvida de que ele se refere ao Anticristo; e o particípio resistindo deve ser explicado no tempo futuro. Pois, em minha opinião, ele acrescentou isto para a consolação dos fiéis – que o reinado do Anticristo será temporário, seus limites tendo sido designa- dos por Deus; pois os fiéis poderiam objetar: “De que vale que o evangelho seja pregado, se Satanás agora está incubando uma tirania que ele exercerá para sempre?” Concordemente, ele exorta à paciência, porque Deus aflige sua Igreja apenas por um tempo, para que possa um dia dar-lhe o livramento; e, por outro lado, a perpetuidade do reinado de Cristo deve ser considerada, a fim de que os fiéis possam repousar nisto.

"Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado;" (2 Tessalonicenses 2:8)

E então será revelado, ou seja, quando aquele impedimento (τὸ κατέχον) for removido; pois ele não assinala o tempo da revelação como sendo quando aquele que agora tem a supremacia for tirado do caminho, mas tem em vista o que havia dito antes. Pois ele dissera que havia certo impedimento no caminho do Anticristo para que este chegasse à posse declarada do reino. Em seguida, acrescentou que ele estava incubando uma obra secreta de impiedade. Em terceiro lugar, intercalou uma consolação, com base em que esta tirania chegaria a um fim. Ele agora repete novamente que aquele que ainda estava oculto seria revelado neste tempo; e a repetição tem este objetivo – que os fiéis, estando equipados com a armadura espiritual, possam, não obstante, lutar valorosamente sob Cristo, e não se permitirem vencer, ainda que a avalanche de impiedade seja tão difusa. 
A quem o Senhor. Ele havia prenunciado a destruição do reinado do Anticristo; agora, assinala o modo da sua destruição – que ele será reduzido a nada pela palavra do Senhor. Contudo, é incerto se ele fala da aparição final de Cristo, quando ele será manifestado desde o céu como o Juiz. As palavras, de fato, parecem ter este sentido, mas Paulo não quer dizer que Cristo realizaria isto em um só momento. Por onde devemos entendê-lo no sentido de que o Anticristo seria totalmente e em cada aspecto destruído – quando aquele dia final da restauração de todas as coisas chegasse. Contudo, Paulo sugere, ao mesmo tempo, que Cristo colocará em fuga, através dos raios que emitirá antes do seu advento, a escuridão em que o Anticristo reinará; assim como o sol, antes de ser visto por nós, afugenta as trevas da noite pela emanação dos seus raios. 
Portanto, esta vitória da palavra se revelará neste mundo, pois o espírito da sua boca simplesmente se refere à palavra, assim como também em Is 11:4 – passagem a que Paulo parece aludir. Pois ali o Profeta toma no mesmo sentido o cetro da sua boca, e o sopro dos seus lábios, e também provê Cristo destas mesmas armas, a fim de que ele aniquile seus inimigos. Esta é uma notável recomendação da verdadeira e sã doutrina – que ela seja apresentada como suficiente para pôr um fim a toda a impiedade; e como destinada a ser, invariavelmente, vitoriosa em oposição a todas as maquinações de Satanás; como também quando, pouco depois, a sua proclamação é expressa como a vinda de Cristo a nós.
Quando Paulo acrescenta: esplendor da sua vinda, ele sugere que a luz da presença de Cristo será tal que tragará as trevas do Anticristo. Ao mesmo tempo, ele sugere indiretamente que o Anticristo terá permissão para reinar por um tempo, quando Cristo, de certa forma, se tem retirado, como geralmente acontece quando, ao se apresentar, voltamos nossas costas para ele. E, sem sombra de dúvida, este é um triste afastamento de Cristo – quando ele retira sua luz dos homens, a qual foi imprópria e indignamente recebida, de acordo com o que se segue. Ao mesmo tempo, Paulo ensina que, apenas pela sua presença, todos os eleitos de Deus estarão abundantemente seguros, em oposição a todas as sutilezas de Satanás.

"A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira," (2 Tessalonicenses 2:9)

Cuja vinda. Ele confirma o que disse através de um argumento a partir de opostos. Pois, como o Anticristo não pode permanecer de outro nodo senão através dos embustes de Satanás, ele deve necessariamente desaparecer tão logo Cristo resplandeça. Por fim, como é apenas nas trevas que ele reina, a aurora do dia põe em fuga e extingue as densas trevas do seu reinado. Agora estamos de posse do propósito de Paulo, pois ele queria dizer que Cristo não teria dificuldade em destruir a tirania do Anticristo, o qual não era apoiado por outros recursos senão os de Satanás. Ao mesmo tempo, porém, ele indica as marcas pelas quais aquele ímpio pode ser distinguido. Pois, após ter falado acerca da operação ou eficácia de Satanás, ele a assinala particularmente, quando diz: com sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano. E, certa- mente, para que possa ser oposto ao reino de Cristo, isto deve consistir, parcialmente, de falsa doutrina e erros, e parcialmente de pretensos milagres. Pois o reino de Cristo consiste da doutrina da verdade, e do poder do Espírito. Concordemente, Satanás, tendo em vista se opor a Cristo na pessoa do seu Vigário, veste a máscara de Cristo, enquanto, ao mesmo tempo, escolhe uma armadura com que possa se opor diretamente a Cristo. Cristo, pela doutrina do seu evangelho, ilumina nossas mentes na vida eterna; o Anticristo, treinado sob a instrução de Satanás, por meio de perversa doutrina, envolve os ímpios em ruína; Cristo apresenta o poder do seu Espírito para salvação, e sela o seu evangelho por meio de milagres; o adversário, pela eficácia de Satanás, nos aliena do Espírito Santo, e pelos seus encantamentos confirma os homens miseráveis no erro.
Ele dá o nome de prodígios de mentira, não apenas àqueles que são falsa e enganosamente concebidos por homens astutos, com vistas a se impor sobre os simples – um tipo de engano com que abunda todo o Papado, pois eles fazem parte do seu poder, do qual anteriormente tratou; mas toma a mentira como consistindo disto – que Satanás leva a um fim contrário obras que de outro modo são realmente obras de Deus, e abusa dos milagres para obscurecer a glória de Deus. Ao mesmo tempo, porém, não pode haver dúvida de que ele engana através de encantamentos – dos quais temos um exemplo nos magos do Faraó (Ex 7:11).

"E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem." (2 Tessalonicenses 2:10)

Para os que perecem. Ele limita o poder de Satanás, como não sendo capaz de prejudicar os eleitos de Deus – assim como Cristo também os isenta deste perigo (Mt 24:24). A partir disto se mostra que o Anticristo não tem um poder tão grande, senão pela sua permissão. Ora, esta consolação era necessária. Pois todos os que são piedosos, se não fosse por isto, necessariamente seriam dominados pelo temor, se vissem um abismo escancarado permeando todo o caminho pelo qual devem passar. Por isso Paulo, por mais que deseje que eles estejam em um estado de ansiedade, a fim de que estejam de guarda para que não voltem atrás devido a uma negligência excessiva – sim, até mesmo se lancem em ruína; não obstante, os manda nutrir boa esperança, porquanto o poder de Satanás está restringido, a fim de que ele não envolva em ruína ninguém senão dos ímpios.
Porque não receberam o amor. Para que os ímpios não se queixem de que perecem inocentemente, e de que foram destinados à morte mais por crueldade da parte de Deus, do que por qualquer erro da parte deles, Paulo explica com que bons motivos virá sobre eles tão severa vingança da parte de Deus – porque não receberam na moderação de espírito que deveriam a verdade que lhes fora apresentada; mais ainda, rejeitaram a salvação por sua própria vontade. E a partir disto se mostra mais claramente o que já tenho explicado – que o evangelho precisava ser pregado ao mundo antes que Deus desse a Satanás tanta permissão; pois ele nunca teria permitido que seu templo fosse tão abjetamente profanado, se não tivesse sido provocado pela extrema ingratidão por parte dos homens. Em suma, Paulo declara que o Anticristo será o ministro da justa vingança de Deus contra aqueles que, sendo chamados à salvação, rejeitaram o evangelho, e preferiram aplicar sua mente à impiedade e ao engano. Por isso, agora não há razão para os papistas objetarem que está em desacordo com a clemência de Cristo deixar cair a sua Igreja desta maneira. Pois, embora o domínio do Anticristo tenha sido cruel, ninguém pereceu, senão aqueles que foram merecedores disto; mais ainda, por sua própria vontade escolheram a morte (Pv 8:36). E, sem sombra de dúvida, ainda que a voz do Filho de Deus tenha soado por toda a parte, ela acha os ouvidos dos homens moucos – sim, obstinados; e, embora uma confissão do Cristianismo seja comum, existem, não obstante, poucos que verdadeiramente e de coração têm se entregado a Cristo. Por isso, não é de se surpreender, se semelhante vingança rapidamente suceder a um desprezo tão criminoso.
Questiona-se se o castigo da cegueira não cai senão sobre aqueles que, deliberadamente, se rebelaram contra o evangelho. Eu respondo que este juízo especial pelo qual Deus tem vingado uma clara obstinação não o impede de abater com estupidez, tantas vezes quanto lhe pareça bom, aqueles que nunca ouviram uma única palavra a respeito de Cristo; pois Paulo não discursa de um modo geral quanto às razões pelas quais Deus permitiu desde o princípio que Satanás siga à vontade com as suas mentiras, e sim quanto a que vingança horrível paira sobre os desprezadores grosseiros da nova e, anteriormente, incomum graça.
Ele usa a expressão: recebendo o amor da verdade, no sentido de aplicar a mente ao seu amor. Por onde aprendemos que a fé sempre está associada a uma doce e voluntária reverência a Deus – porque não cremos, devidamente, na palavra de Deus, a menos que ela seja amável e agradável a nós.

"E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira;" (2 Tessalonicenses 2:11)

A operação do erro. Ele quer dizer que o engano não apenas terá um lugar, mas os ímpios serão cegados, de modo que se precipitarão à ruína sem consideração. Pois, assim como Deus nos ilumina interiormente pelo seu Espírito, para que a sua doutrina seja eficaz em nós, e abre os nossos olhos e corações, para que ela faça o seu caminho, do mesmo modo, por um justo juízo, ele entrega a uma mente réproba (Rm 1:28) aqueles que destinou à destruição, para que, com olhos fechados e uma mente insensata, eles possam, como se estivessem enfeitiçados, se entregar a Satanás e seus ministros para serem enganados. E, certamente, temos uma amostra notável disto no Papado. Nenhuma palavra pode expressar que antro monstruoso de erros existe ali, que absurdo grosseiro e vergonhoso de superstições existe ali, e que ilusões em desacordo com o senso comum. Ninguém que possua até mesmo um senso moderado da sã doutrina pode pensar em coisas tão monstruosas sem o maior terror. Então, como o mundo todo poderia se perder de espanto com eles, se não fosse porque os homens têm sido feridos de cegueira pelo Senhor, e converti- dos, por assim dizer, em tocos de madeira?
                 

"Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade." (2 Tessalonicenses 2:12)

Para que sejam julgados todos. Ou seja, para que recebam o castigo devi- do à sua impiedade. Assim, aqueles que perecem não têm nenhum motivo justo para discutir com Deus, porquanto alcançaram o que buscavam. Pois devemos ter em vista o que é dito em Dt 13:3, que os corações dos homens são sujeitos à prova, quando surgem falsas doutrinas, porquanto elas não têm poder, exceto entre aqueles que não amam a Deus com um coração sincero. Então, que aqueles que têm prazer na injustiça colham o seu fruto. Quando ele diz todos, significa que o desprezo a Deus não acha escusa no grande número e multidão daqueles que se recusam obedecer ao Evangelho; pois Deus é o Juiz do mundo todo, de modo que infligirá castigo a cem mil não menos do que a um único indivíduo.
O particípio εὐδοκήσαντες (têm prazer) significa, por assim dizer, uma inclinação voluntária para o mal, pois deste modo é removida toda a desculpa dos ingratos, quando têm tanto prazer na injustiça que preferem-na à justiça de Deus. Pois, através de que violência dirão ter sido impelidos a se alienarem por uma louca rebelião contra Deus, em direção a quem eles eram conduzidos pela orientação da natureza? Ao menos fica manifesto que eles, voluntária e conscientemente, deram ouvidos a mentiras.

"Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; " (2 Tessalonicenses 2:13)

Mas devemos dar graças. Agora ele separa mais abertamente os tessalonicenses dos réprobos, a fim de que a fé deles não vacilasse pelo temor da rebelião que deveria acontecer. Ao mesmo tempo, ele tinha em vista considerar não apenas o bem-estar deles, mas também o da posteridade. E ele não apenas os confirma para que não caiam no mesmo precipício com o mundo, mas através desta comparação, exalta ainda mais a graça de Deus para com eles, pelo fato de que, embora vejam praticamente todo o mundo compelido ao mesmo tempo para a morte, como que por uma violenta tempestade; eles são, pela mão de Deus, mantidos em uma condição de vida tranquila e segura. Assim, devemos contemplar os juízos de Deus sobre os réprobos de tal modo que possam ser para nós como que espelhos, para considerarmos a sua misericórdia para conosco. Pois devemos deduzir esta conclusão – de que é exclusivamente devido à graça singular de Deus que não perecemos miseravelmente com eles.
Ele os chama de amados do Senhor por esta razão – para que melhor considerem que a única razão pela qual estão isentos da ruína quase que universal do mundo é porque Deus exerceu para com eles amor imerecido. Assim Moisés admoestou os judeus: “Deus não vos exaltou tão magnificamente porque fosseis mais fortes do que outros, ou fosseis numerosos, mas porque amou a vossos pais” (Dt 7:7-8).
Pois, quando ouvimos o termo amor, aquela declaração de João deve imediatamente ocorrer à nossa mente – não que o amamos primeiro (1 Jo 4:19). Em suma, aqui Paulo faz duas coisas; pois ele confirma a fé, para que os que são piedosos não se deixem vencer pelo temor, e os exorta à gratidão, para que valorizem tanto mais a misericórdia de Deus para com eles.
Por vos ter elegido. Ele declara a razão pela qual nem todos são envolvidos e tragados na mesma ruína – porque Satanás não tem poder algum sobre aqueles que Deus escolheu, de modo a impedi-los de serem salvos, ainda que o céu e a terra sejam confundidos. Esta passagem é lida de diversas maneiras.
O intérprete antigo traduziu-a como primeiros frutos, como estando no grego ἀπαρχήν; mas como quase todos os manuscritos gregos trazem απ᾿ ἀρχὢς, segui de preferência esta leitura. Se alguém preferir primeiros frutos, o sentido será de que os fiéis foram, por assim dizer, postos de lado para uma oferta sagrada – por uma metáfora tirada do costume antigo da lei. Contudo, mantenhamos o que é mais geralmente recebido – que ele afirma que os tessalonicenses foram escolhidos desde o princípio.
Alguns entendem que o sentido é de que eles foram chamados entre os primeiros; mas isto é estranho ao sentido de Paulo, e não está de acordo com o contexto da passagem. Pois ele não isenta do temor apenas alguns indivíduos, que haviam sido levados a Cristo logo no princípio do evangelho, mas esta consolação pertence a todos os eleitos de Deus, sem exceção. Portanto, quando diz: desde o princípio, ele quer dizer que não há perigo de que a salvação deles, que está fundamentada na eleição eterna de Deus, seja subvertida, sejam quais forem as mudanças tumultuosas que possam ocorrer. “Por mais que Satanás possa misturar e confundir todas as coisas no mundo, vossa salvação, apesar disso, foi colocada em uma posição de segurança, antes da criação do mundo”. Portanto, aqui está o verdadeiro porto de segurança – que Deus, que nos escolheu desde a antiguidade, nos livrará de todos os males que nos ameaçam. Pois somos eleitos para a salvação; portanto, estaremos seguros da destruição. Mas, como não cabe a nós penetrar no conselho secreto de Deus, para encontrar aí a certeza da nossa salvação, ele especifica sinais e indícios de eleição, que deveriam nos bastar para a certeza acerca dela.
Em santificação do espírito, diz ele, e fé da verdade. Isto pode ser explicado de duas maneiras – com santificação, ou por santificação. Não é de muita importância qual dos dois escolheis, pois é certo que Paulo pretendia simplesmente apresentar, em conexão com a eleição, aqueles sinais mais imediatos que manifestam a nós o que em sua própria natureza é incompreensível, e estão associados a ela por um elo indissolúvel. Por isso, a fim de que saibamos que somos eleitos por Deus, não há razão para inquirirmos quanto ao que ele decretou antes da criação do mundo; mas encontramos em nós mesmos uma prova satisfatória de que ele nos tem santificado pelo seu Espírito – se ele nos tem iluminado na fé do seu evangelho. Pois o evangelho é para nós uma evidência da nossa adoção; e o Espírito o sela; e aqueles que são guiados pelo Espírito estes são filhos de Deus (Rm 8:14); e aquele que pela fé possui a Cristo tem a vida eterna (1 Jo 5:12). Estas coisas devem ser atentamente observadas para que, desprezando a revelação da vontade de Deus, com a qual ele nos manda permanecermos santificados, não mergulhemos em um labirinto profundo por um desejo de extraí-la a partir do seu conselho secreto, de cuja investigação ele nos afasta. Por isso, convém que fiquemos satisfeitos com a fé do evangelho, e com aquela graça do Espírito pela qual temos sido regenerados. E, deste modo, é refutada a impiedade daqueles que fazem da eleição de Deus um pretexto para todo o tipo de iniquidade – ao passo que Paulo a relaciona com a fé e a regeneração de tal modo que ele não queria que a julgássemos sobre qualquer outro fundamento.

"Para o que pelo nosso evangelho vos chamou, para alcançardes a glória de nosso Senhor

Jesus Cristo." (2 Tessalonicenses 2:14)
Para o que nos chamou. Ele repete a mesma coisa, embora em termos um tanto diferentes. Pois os filhos de Deus não são chamados à crença da verdade de outro modo. Contudo, Paulo pretendia mostrar aqui quão competente testemunha ele é para confirmar aquilo de que era ministro. Concordemente, ele se apresenta como uma garantia, a fim de que os tessalonicenses não duvidem de que o Evangelho, no qual haviam sido instruídos por ele, é a reconfortante voz de Deus, pela qual são despertados da morte, e salvos da tirania de Satanás. Ele o chama de seu evangelho, não como se tivesse se originado com ele, e sim porque a pregação dele lhe havia sido confiada.
O que ele acrescenta, para a aquisição ou possessão da glória de Cristo, pode ser entendido quer em um sentido ativo ou passivo – ou como significando que eles são chamados para que um dia possuam uma glória em comum com Cristo, ou que Cristo os adquiriu tendo em vista a sua glória. E assim será um segundo meio de confirmação o fato de que ele os defenderá, como sendo nada menos do que sua própria herança; e, ao manter a salvação deles, se apresentará em defesa da sua própria glória; este último sentido, em minha opinião, está mais de acordo.

"Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa." (2 Tessalonicenses 2:15)

Retende as tradições. Alguns restringem isto a preceitos de conduta exterior; mas isto não me contenta, pois ele aponta para o modo de permanecer firme. Ora, estar equipado com força invencível é muito mais do que disciplina exterior. Por isso, em minha opinião, ele inclui toda a doutrina sob este termo, como se tivesse dito que eles têm um fundamento sobre o qual podem permanecer firme, desde que perseverem na sã doutrina – conforme o que haviam sido instruídos por ele. Não nego que o termo παραδόσεις seja adequadamente aplicado às ordenanças que são estabelecidas pelas igrejas, com vistas à promoção da paz e à manutenção da ordem; e admito que é empregada neste sentido quando se tratam de tradições humanas (Mt 15:6). Contudo, Paulo será encontrado no próximo capítulo fazendo uso do termo tradição, no sentido da regra que havia formulado, e a própria significação do termo é genérica. O contexto, porém, conforme eu disse, exige que ela seja entendida aqui no sentido da totalidade daquela doutrina na qual eles haviam sido instruídos. Pois o assunto tratado é o mais importante de todos – que a fé deles permanecesse segura em meio a uma terrível agitação da Igreja.
Os papistas, porém, fazem papel de loucos ao deduzir a partir disto que suas tradições deveriam ser observadas. Na verdade, eles raciocinam da seguinte maneira – que, se era permissível para Paulo prescrever tradições, também era permissível para outros mestres; e que, se era algo piedoso observar as primeiras, as últimas também não deveriam ser menos observadas. Contudo, concedendo-lhes que Paulo fala de preceitos pertencentes ao governo exterior da Igreja, digo que, não obstante, eles não foram inventados por ele, mas comunicados divinamente. Pois ele declara em outro lugar (1 Co 7:35) que não era sua intenção prender as consciências, pois isto não era lícito, nem para si, nem para todos os apóstolos juntos. Eles fazem um papel ainda mais ridículo, ao fazer do seu objetivo passar, sob isto, o escoadouro abominável de suas próprias superstições, como se fossem as tradições de Paulo. Mas, “adeus” para essas ninharias, quando estamos na posse do verdadeiro sentido de Paulo. E podemos julgar, em parte através desta Epístola, que tradições ele recomenda aqui, pois diz: quer por palavra, ou seja, discurso, ou por epístola. Ora, o que estas Epístolas contêm senão a pura doutrina, que subverte o próprio fundamento de todo o Papado, e toda a invenção que esteja em desacordo com a simplicidade do Evangelho?

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